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Das fibras das sobras pingo tremeliquentas pilhas
Atribuo Paz ao som que me corre.
Atribuo Limite Ao esforço de renovar-me a cada milésimo de tempo sentido.
Atribuo Suor A cada rastro meu.
Atribuo Cor Às dolores de mim.
Atribuo Ventos Às olhadas para dentro que sempre me dou.
Tributo À força do vir a ser toda a brutalidade que é própria da cultura.
À vida, exponho minha necessidade de morte. Já.
Atribuo Doença À relacionalidade familiar que me estraçalhou sempre impunemente.
Escrito por Fabulare às 20h20
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"(...) Amei e odiei como toda gente. Mas para toda gente isso foi normal e instintivo. Para mim sempre foi a exceção, o choque, a válvula, o espasmo. Não sei se a vida é pouco ou demais pra mim. Não sei se sinto demais ou de menos, Seja como for a vida, de tão interessante que é a todos os momentos, a vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger, a dar vontade de dar pulos, de ficar no chão, de sair para fora de todas as casas, de todas as lógicas, de todas as sacadas e ir selvagem entre árvores e esquecimentos." (Passagem das horas, Álvaro de Campos)
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Escrito por Fabulare às 20h42
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Satura
Entre o sonho, as pernas, o pau e a bancarrota da carne há um fio que se entrepõe. Um fio discreto e desequilibrante. Finíssimo campo de clandestina transpiração. Água no meu ar, fogaréu distribuído à terra. Fadiga. Sonhei que lutava sobre pernas-de-pau. Tinha que matar quem me matava e o equilíbrio era pouco. Tacava-lhe um rodinho na fuça. A fuça era puro óleo corporal. Escorregava manteigoso o rodo. O chão tinha poças contínuas. Uma de braço dado à outra. Algumas eram poças de sebo derretido. O chão sob estas era aquecido por alguma força localizada abaixo do azulejo. Todo o espaço da luta era entre as paredes de uma cozinha de azulejo branco. Branco de hospício. Os móveis eram mudos como nunca antes soubera. Estáticos. Cegos. Indiferentes até não poder mais. Eu poderia ser degolada ali e eles continuariam em pose de prudência. Peito estufado. Barriga chupada. Ar em iminência de sopro. Se o sopro fosse muito sopro desandaria com a pompa da pose. Ar ar é descompostura. Sopro sopro é desenfreamento do dentro. Dança dança das hemoglobinas é dissolução da hemorróida peitoral. Ê, coração, resistes heim!?! Cheguei àquele gládio não sei como. Subi àquelas pernas-de-pau não sei por onde. Um túnel de febre me conduzira sem contar o lugar onde me desembocaria. Era uma luta castrante. Tato incerto. Urro sem som além de um verminoso chiado. Impotência dos impulsos. Sem força de expressão. Sem um “há” à eficácia de ação. Cada golpe endereçado à fêmea que me matava era um golpe de palhaço fracassado. Velocidade do ir. Ligeireza de desespero. As partes do chão que eram quentes subiam até meus esfacelados encéfalos. Eles gemiam nesse finório calor. Tremiam os olhos, mesmo contrariados. As partes do chão geladas como branco de hospício também subiam às tripas mentais. Espremiam-se agudas. Os olhos fritavam de cólica. Perfurados por estes gélidos toques em cada mínimo mover. Aos passos que eu dava em voraz determinação de gládio correspondiam abalos epiléticos dentre os encéfalos e dentre as correntes sanguíneas. Estas se destrambelhavam. Minhas formas em degradada simetria se chocavam, grudavam e dividiam-se entre si em raios de instante. Sob esse som de míssil em disparada; de fígado de porco despencado sobre a montanha de outras entranhas; de velcro do mundo a se partir, sob esse som minha mente ensaiava passos de pensar. Estes proto-passos eram machadadas que desciam a se estender pelas ligações sinápticas até aos membros agentes. Desvairada, minha mão do braço agarrava o rodo ou o que fosse. Sem sensação de opção avançava em urgente ataque. Ataque de um susto pois sabia que o proto-passo mental já estava a se desfazer e, ao mesmo tempo, tinha que se tornar ato pois do contrário eu morreria já. As mãos se moviam em febre de ânsia de ação. Antes que o proto-passo se perdesse na epilepsia de dentro, faziam-no ato. Dança sobre um átimo. A fêmea triscava-me com suas machadadas. Pescoço. Acordei enrijecida de frio e de ar frio a corromper meus poros e narinas. A boca torta e colorida. Estava deitada de bruços. O buco virado de lado e sobre ele o peso cabeçal. Fraquética pelo terror da impotência alucinada. Pele a irromper pois inflada de urina. Banheiro. Desagüei. Olhei o escuro a partir da perspectiva do trono. Fixa no breu firmei um pouco os oscilantes e apavorados feixes encefálicos. Claustro. As paredes são cor creme aqui, o chão é um calabouço indefeso, mas calabouço. As quinas do quarto têm curvas íngremes. Não retêm. Disparam. Entre o sonho, as pernas, o pau e a bancarrota da carne há um fio que se entrepõe. Um fio discreto e desequilibrante. Finíssimo campo de clandestina transpiração. Água no meu ar, fogaréu distribuído à terra. Fadiga.
Carusa Gabriela, 01/2007
Escrito por Fabulare às 14h37
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Tem um pé de manga
Nascendo em cima telhado
Até onde ele vai?
(20/03/08)
Escrito por Fabulare às 17h57
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Brancas e bordô
Ontem vi flores Brancas e bordô Agora as vejo travês Estão de cabeça baixa E os galhos sem postura Hoje teve tempestade Provação e tristeza Muito movimento Ontem eram flores brancas e bordô Hoje são flores brancas e bordô
Escrito por Fabulare às 17h55
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Gente que ama e quer
Ah quanta vontade de delírio. Quanto sonho indo indo. Escamas desprendem-se e vão vão. Leve, leve-os, leve-as. Que eu fique em pé Branca Só Feito gelo na fumaça Feito gelo absoluto Feito gente que ama e quer
Escrito por Fabulare às 17h36
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Descontorno
Gostaria de ler muito hoje um poeta todo amor todo fogo e solavanco Gostaria de amarrar À minha goela Toda essa poesia E fincar Num conta-gotas Todo esse fogo, amor e solavanco Quero o enorme sentimento De esquecer que em volta há mundo. Quero a isolação mais pasma E o futuro mais absurdo Se com as gotas Meu corpo puder lidar
Escrito por Fabulare às 17h34
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Átimo
Gostaria de seu corpo aqui Comigo agora Seu cheiro passeando aqui Em mim agora Gostaria de saber de ti Se há vontade recíproca É estranho Desejar e repelir concomitante a um automático Novo desejar desequilibrado, todavia, pelo seguinte repelir. É estranho Entretanto quero E me importa não faltar com a integridade da Breve paixão
E me importa não faltar com a integridade da Breve paixão
E me importa não faltar com a integridade do Átimo 'mor Átimo amor, me importa
Escrito por Fabulare às 19h19
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Besteira
Sabe aqueles gestos conscientes que no entanatos têm mais de in do que menos? Pois é. O gesto de achar a minha chave de todo dia era assim. Todos os dias eram assins. Baixava a mão até ao bolso exterior da bolsa velha e lá estava a sempre ali minha chave. Abrir a porta é outra história pois que o gesto de abri-la sempre me foi cheio de obstáculos. Uma vocação para emperros aquela porta continha. A chave não. A bolsa velha não. Houve, pois, que a chave quis ser oblíqua e rompeu com a qualidade mais in do que menos do gesto de achá-la. Até para agarrar a sempre ali minha chave agora há obstáculos? Oh consciência do gesto: agora vem-me toda mais do que menos. A minha chave se oblitera a mi própria. Quantos segredos inlidáveis para o gesto. Enfim: cadê-me? I don't know.
Num trago de pensamento enfim espalham-se mil segredos. Maldito chaveiro. Cadê-me am? A fumaça percorre. O corpo insufla-se. Tonto. Paura. O mistério da chave pois desabotoou-se e não só antes junto a uma legião de estranhos. Introutros. Ah. Maldito texto. Porquália. Que frases ruins. Mas é. Esforçar-se pela chave é idiotia. É para sempre ali bater co' a testa no muro das lamentações imprestáveis. Ficar sem ela todavia: como? O texto continua porqualhento. Ah. Mas eu o sou. Assins. Inachada, porqualhenta, mais in do que menos. Tristes segredos. Lides perdidas: a de estar. Tela negra. Vou misturando sopros e tacos de cuspe e viro um pouco e ponho-a ao sol, viro. As costas também. Esparramando, uns clarões vou misturando à tela. Porcuália. Mas o negro fica. Por sob as misturas sempre ali minha tela fica a cor. É, não há jeito. Esse texto não se embonita. Não deu sorte essa parição. O fato é que está oblíqua minha relação com o gesto de agarrar a chave. O fato é que isso me nomeia Paura. O fato é que não vou tentar mais dar melhor molde às idéias flutuantes em mi aqui. Ficou feio mesmo. Nem todo texto é moral mesmo, né?
Escrito por Fabulare às 12h25
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Favo José
Escolho ser explícita o quanto possível, pois, caso contrário, me vejo em estado de agressão. Escolho ser inteira o quanto possível, pois, caso contrário, o medo e a privação tomam conta e isso enfraquece. Escolho o inssabido, pois se da entrega maior, que é a morte, eu não tenho medo e inclusive anseio, não me privarei mais da entrega ao inssabido maior, que é o amor.
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Escrito por Fabulare às 15h14
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Frankenstein, ou o caos indomável todavia inteligível
envolvente receptiva esquecimento é encontro ou lassidão é finório amor Talvez seja transtornada paixão Não sei pois com quais palavras comunicar a minha sensação a respeito de São Paulo. Sei contudo nada obstante que essa cidade criou em mi um sentimento antes por mim inssabido. Eu, bobamente, a amo. "[...] e amo-a por isso, Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama, nem sabe o que é amar.
Amar é a eterna inocência, E a única inocência é não pensar..." (Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, II)
(Ontem/02/2008)
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Escrito por Fabulare às 15h08
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"- Só me lembro do estupor que sentia, quando rapaz ante a indiferença das pessoas. - É possível, eu sempre me perguntei, que ninguém pense em ninguém E QUE NINGUÉM PERGUNTE O POR QUÊ? - É esse motivo porque eu me pergunto que se ao menos um homem, ainda que um só homem se isolasse do mundo para pensar em todos os outros, por todos os outros, podemos ainda ter esperança." "- O senhor fala de vida e de esperança."
Esse foi um trecho do filme "Noites com Sol" (1990) de Paolo e Vittorio taviani. Baseado no livro "Padre Sérgio", de Leon Tolstói. E, aí vai uma possível resposta às perguntações do admirável Padre...
" 'Na vida você só precisa de amnor e fé em si mesmo'. Aí, não há nada que não possa fazer. (...) 'Com amor, tudo se consegue.' 'Tudo tem seu lado bom'. ' A fé move montanhas'. ' O amor sempre vence no final'. 'Tudo acontece por uma razão'. 'Enquanto houver vida, há esperança'. - Bom, eles precisavam te dizer alguma coisa!"
ELES PRECISAVAM TE DIZER ALGUMA COISA! ALGUMA COISA!! QUE TE FIZESSE ACREDITAR QUE O MUNDO VALE A PENA! QUE TE FIZESSE SENTIR AUTÔNOMO E SADIO NAS SUAS VONTADES E AÇÕES! VONTADES E AÇÕES ESTAS QUE CONVERGEM PARA A MANUTENÇÃO DO ESTADO DE COISAS! OH!
Esse foi um trecho do filme "Monster - desejo assassino (2003) de Patty Jenkins. Baseado em parte da história de vida de Aileen Wuornos.
Digo agora algo que há um tempo me acenta entre os dentes. Um pensar-sentir que bafora assim... A esperança é a forma e o modo de resignação por excelênca.
O desejo de sobreviver interiorizado como necessidade é o vergão por excelência inflamado pelo capitalismo nas almas e, ao mesmo tempo, nas práticas contemporâneas a ele... vergão todavia tido como desejo natural! Eis a ação do chicote com ganchos! Eis o júbilo da subjugação chamada Ordem Social e de sua cã-de-guarda chamada Relacionalidade!
Escrito por Fabulare às 12h48
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EIS A AÇÃO DO CHICOTE COM GANCHOS! EIS O JÚBILO DA SUBJUGAÇÃO CHAMADA ORDEM SOCIAL E DE SUA CÃ-DE-GUARDA CHAMADA RELACIONALIDADE!
HÁ UM TEMPO ME ACENTA ENTRE OS DENTES UM PENSAR-SENTIR QUE BAFORA ASSIM... A ESPERANÇA É A FORMA E O MODO DE RESIGNAÇÃO POR EXCELÊNCA.
O DESEJO DE SOBREVIVER INTERIORIZADO COMO NECESSIDADE É O VERGÃO POR EXCELÊNCIA INFLAMADO PELO CAPITALISMO NAS ALMAS E, AO MESMO TEMPO, NAS PRÁTICAS CONTEMPORÂNEAS A ELE... VERGÃO TODAVIA TIDO COMO DESEJO NATURAL! EIS A AÇÃO DO CHICOTE COM GANCHOS! EIS O JÚBILO DA SUBJUGAÇÃO CHAMADA ORDEM SOCIAL E DE SUA CÃ-DE-GUARDA CHAMADA RELACIONALIDADE!
Escrito por Fabulare às 08h00
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Cai
Other
Costas
Neve
Escrito por Fabulare às 13h11
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Cisne
Escrito por Fabulare às 13h11
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